Atire a primeira figa quem nunca mudou de calçada para evitar que um gato negro como a consciência do Lula atravessasse seu caminho. Ou nunca bateu três vezes na madeira para afastar o azar ― hábito que remonta à crença de que as árvores eram a morada dos deuses, e bater em seus troncos era uma forma de mandar os demônios de volta às profundezas do inferno.

O fato é que as superstições existem desde que o mundo é mundo, e as pessoas se dividem em duas categorias: as que são supersticiosas e as que fingem que não são. Mesmo sem comprovação científica, essas crendices desafiam o bom senso e resistem até hoje, e algumas delas chegam mesmo a nos proteger de alguns perigos reais.

Achar que dá azar passar debaixo de uma escada, por exemplo, é uma crendice associada ao dogma cristão da Santíssima Trindade ― quem o desrespeita estaria violando o triângulo sagrado ―, mas é indiscutível essa “desatenção”, digamos assim, aumenta significativamente o risco de receber uma lata de tinta na cabeça. Ah, já ia me esquecendo: os gatos, notadamente os pretos, eram associados às forças ocultas e à feitiçaria na Europa medieval, e tidos pelos crédulos como bruxas disfarçadas em suas andanças noturnas. A coisa chegou a tal ponto que o papa Inocêncio VIII ― pasmem! ― incluiu os bichanos na lista dos perseguidos pela Inquisição, mas, crendices à parte, estudos científicos constataram que a pele dos gatos pretos apresenta alta concentração de uma proteína que pode desencadear reações alérgicas nos humanos.

A título de curiosidade: Em Roma, os crédulos acham que cruzar com um grupo de freiras é sinal de extrema má sorte (para afastar o azar, as pessoas tocam as próprias partes íntimas); em Malta, as igrejas com duas torres têm um relógio afixado em cada uma delas, mas marcando horários diferente, para o Diabo não saber a hora certa da missa.

Passando ao que interessa, mesmo que você não se considere supersticioso, não terá nada a perder seguindo a simpatia do "nhoque da sorte". A coisa consiste em preparar essa receita tipicamente italiana ― que fica uma delícia ao sugo, à bolonhesa, com molho branco, e por aí vai ―, comer 7 gominhos em pé ― fazendo um pedido a cada gominho ― e então colocar o prato sobre uma nota de dinheiro (o valor fica a critério de cada um), terminar normalmente a refeição, guardar a nota na carteira até o dia 29 do mês seguinte e usá-la para comprar pelo menos um dos ingredientes da receita (a simpatia deve ser repetida todo dia 29).   

Você vai precisar de:

― 500g de massa fresca de nhoque;

― 2 colheres (sopa) de azeite de oliva virgem;

― 3 dentes de alho;

― 1/2 kg de tomates maduros;

― 2 cebolas;

― 10 folhinhas de manjericão,

― 2 folhinhas de louro fresco;

― Sal, pimenta-do-reino, orégano e queijo parmesão ralado a gosto.

Cozinhe a massa em água fervente e, com uma escumadeira, retire os nhoques à medida que eles forem subindo. Reserve. Bata os tomates no liquidificador, passe-os por uma peneira e refogue a pasta no azeite, com as cebolas raladas e os dentes de alho picados ou esmagados. Adicione o sal, a pimenta, o louro e parte das folhas de manjericão (bem picadinhas). Quando o refogado apurar, despeje-o sobre os nhoques cozidos, decore com o resto das folhas de manjericão, acrescente uma pitada de orégano e parmesão ralado a gosto e sirva em seguida.

Boa sorte a todos.