Hoje, 29 de novembro, é dia de nhoque da fortuna. A bem da verdade, não é só hoje, mas todo dia 29, já que o ritual deve ser repetido ao longo de todo o ano.

Eu já publiquei essa dica em outras oportunidades, mas vou repetir porque a audiência é rotativa ― aliás, muita gente que lê e prestigia estas humildes postagens desparece na poeira da estrada, enquanto gente não tão bacana ― que me faria um grande favor se não aparecesse nunca mais ― age como o vírus da gripe: dá uma trégua durante algum tempo, mas invariavelmente volta a atacar quando menos se espera. Mas isso é outra conversa. Melhor não esquentar a cabeça, e se for para estragar o fígado, que seja tomando um bom vinho.

Voltando à simpatia do nhoque, sempre existem os supersticiosos e os que fingem “não acreditar nessas bobagens”. Comer nhoque todo dia 29, com uma nota de dinheiro sob o prato ― para atrair fortuna ―, já foi uma prática tão popular que em muitas cantinas e restaurantes o prato era servido acompanhado de uma cédula de US$ 1.

Reza a lenda que, no dia 29 de dezembro (não sei de que ano), São Genaro, vestido como mendigo, bateu à porta de uma família pobre, a quem pediu um prato de comida. Foi convidado a entrar e sentar-se à mesa com a família, que dividiu com o santo uma travessa de nhoque. São Genaro comeu, agradeceu e se despediu. Quando os anfitriões voltaram à mesa para retirar os pratos, viram que sob cada um deles havia várias cédulas de dinheiro. Mito, lenda urbana ou mera crendice, isso pouco importa; se você gosta de nhoque, talvez não fique rico seguindo o ritual, mas não perde nada em tentar. A simpatia se resume a degustar os primeiros sete “grãos” em pé (há quem diga que se deve formular um pedido enquanto saboreia cada um deles), colocar prato sobre uma cédula de dinheiro (o valor fica a critério de cada um), sentar-se e terminar a refeição normalmente. Ao final, deve-se guardar a nota na carteira até dia 29 do mês seguinte, quando então ela deve ser usada preferencialmente para comprar os ingredientes da receita, que deve ser servida novamente no dia 29, e assim sucessivamente, durante todo o ano.

Caso você não seja fã de massa industrializada, o nhoque caseiro vendido em feiras livres e açougues de bairro pode ser uma boa alternativa. Já se preferir preparar a massa você mesmo, anote aí os ingredientes:

― 1 kg de batatas tipo Asterix;

― 300g de farinha de trigo;

― 2 colheres (sopa) de manteiga;

― 1 gema;

― 100g de queijo parmesão ralado (fino).

Descasque as batatas, corte cada uma em 4 pedaços e cozinhe em água fervente (adicione uma pitada de sal quando a água estiver começando a ferver). Quando as batatas estiverem bem macias, escorra-as, amasse com um garfo (ou passe-as no espremedor de batatas, caso você tenha um) e espere amornar. Junte a esse “purê” metade do queijo parmesão, a manteiga e a gema de ovo, misture e vá adicionando a farinha aos poucos, até conseguir fazer uma bolinha na mão sem que ela grude (coloque essa bolinha para cozinhar em água fervente; se ela desmanchar, adicione mais um pouco de farinha e tente novamente).

Observação: a qualidade das batatas e o tanto de de água que elas absorvem determinam quanta farinha que você deve usar no preparo da massa. Via de regra, para obter uma massa leve e de melhor sabor, priorize a quantidade de batata em relação à de farinha.

Quando a massa estiver no ponto, estenda-a sobre uma superfície enfarinhada, faça rolinhos com a espessura de um dedo e corte-os em gomos de aproximadamente 2 cm. Leve ao fogo uma panela com água suficiente para cozinhar a massa, despeje os gominhos, retire-os com uma escumadeira à medida que eles forem subindo à superfície (sinal de que estão cozidos) e transfira-os para uma travessa untada com manteiga (para não grudar). Depois, é só cobrir com o molho de sua preferência (ao sugo, à bolonhesa, etc.) polvilhar o restante do queijo ralado e servir.

DicasPara reduzir a umidade da farinha e evitar que os nhoques se desfaçam durante o cozimento, frite a dita-cuja em fogo baixo por 5 minutos (ou até que ela fique levemente dourada). Além disso, cozinhe os nhoques em água com sal, sem adicionar óleo ou azeite, já que a gordura faz com que eles fiquem “escorregadios”, dificultando a absorção do molho.

Para acompanhar o nhoque da sorte, que tal medalhões de filé-mignon ao molho madeira? Você vai precisar de: 

― 4 medalhões de filé (mais detalhes nesta postagem);
― 200g de champignons (frescos ou em conserva);
― 1 colher (sopa) de óleo;
― 2 colheres (sopa) de manteiga;
― 2 colheres (sopa) de cebola bem picada;
― 1/4 de chávena de vinho Madeira;
― 1/2 chávena de caldo de carne;
― 1 colher (chá) de extrato de tomate;
― Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto.

Dica: Se você não aprecia cogumelos, substitua-os por palmito picado.
Tempere os bifes com sal e pimenta. Aqueça bem um fio de azeite numa frigideira de fundo grosso (preferencialmente de ferro) e sele a carne, em fogo alto, por aproximadamente 4 minutos de cada lado.

Quando terminar, derreta (na mesma frigideira, sem lavar) uma colher de manteiga e refogue os cogumelos devidamente picados (ou o palmito, caso você prefira a minha sugestão), junte a cebola (picada ou ralada) e o vinho. Em seguida, sempre mexendo, acrescente o caldo de carne, o extrato de tomate e mais uma colher de manteiga. Acerte o ponto do sal e da pimenta, deixe em fogo médio por cerca de 5 minutos ― ou até o molho assumir uma consistência encorpada ―, regue os bifes e sirva com seu nhoque da sorte.

ObservaçãoSegundo a “Academia da Carne Friboi”, o molho madeira só é considerado autêntico quando preparado com o legítimo vinho da Ilha da Madeira (a receita tradicional levava aipo, alho poró, cenoura e ervas adicionadas ao caldo de carne, que era cozido por algumas horas, e o vinho só entrava por último).

Bom apetite e buona fortuna.