Em temos de sabor e suculência, nada que eu comi no último meio século chegou aos pés dos bifes da minha avó, que eu devorava quando passava férias na casa ou no sítio que a família da minha mãe tinha numa bucólica cidadezinha próxima à divisa com Minas Gerais.

O segredo, eu só vim a descobrir muito tempo depois: a carne era comprada no único açougue da cidade, que era uma simples extensão do matadouro ― tanto que os bifes chegavam quentes, pingando sangue, empapando o jornal (naquela época não havia filme PVC nem sacolinhas plásticas; a carne vinha embrulhada em folhas de jornal, mesmo). E não pense que a gente comia filé-mignon ou miolinho de alcatra; no mais das vezes, os bifes eram de patinho ou coxão mole.

Por mais que tenha tentado, jamais consegui reproduzir aqueles bifes, sobretudo o caldinho que ficava no fundo da frigideira ― e que meus primos e eu disputávamos a tapa para despejar sobre o arroz. E nem poderia, já carne que compramos hoje em dia está longe de ser fresca. Esse papo de açougueiro que diz trabalhar com “carne resfriada” é tão verdadeiro quanto a honestidade de Lula ou a inexistência de contas no exterior em nome de Maluf.

Mas congelar alimentos tem seu lado prático. Claro que o sabor e a textura se alteram um pouco, mas a vida corrida de hoje em impõe sacrifícios. Note, porém, que é fundamental respeitar algumas regrinhas para fazer do freezer seu grande aliado.

Descongelar e tornar a congelar carnes cruas (tanto faz se bovina, suína, de aves ou de peixes) não é recomendável. A carne pode, sim, ser recongelada, mas desde que já tenha sido preparada.

Você pode descongelar o molho à bolonhesa que sobrou da macarronada do domingo, por exemplo, usar parte dele no nhoque de quinta e guardar o restante para a lasanha do outro domingo. Mas procure sempre guardar essas sobras em embalagens individuais, pois aí você só descongela o que efetivamente irá usar.

Observação: Carne crua pode ficar no freezer por até seis meses, mas o melhor é consumi-la na metade desse tempo. Carnes cozidas e processadas, como salsichas e bacon, podem ser congeladas por não mais que um mês.

Algumas ervas perdem a cor e a estrutura quando guaradadas no freezer, mas alecrim, tomilho, erva-limeira, cebolinha e hortelã suportam bem o frio intenso por até três meses.

Ovos inteiros e gemas separadas não podem ser congelados, mas as claras podem, e chegam a durar até 6 meses. Quando batidos, os ovos podem ser congelados por 2 ou 3 meses, mas tenha em mente que, como no caso da carne que minha avó comprava, usar ovos frescos para cozer, fritar, fazer omeletes, etc. e fundamental.

O pão pode ficar na geladeira por até um mês ― mas isso só se justifica se você mora no meio do nada e a padaria mais próxima fica a 3 dias em lombo de burro. Afinal, nada como um pãozinho quentinho, estalando de fresco.

Evite congelar vegetais que tem muita água ― como tomates e pepinos ―, já que o resfriamento pode danificar a estrutura do alimento. Outros ― como a abóbora ― podem ser congelados, desde que previamente escaldados (basta colocar o vegetal em água fervente por dois minutos, removê-lo, colocar em água gelada para interromper o processo de cozimento e depois embalar e guardar no freezer).

Frutas silvestres ― como amora, framboesa, etc. ― podem ficar no freezer o ano todo. Já o morango e outras frutas que contêm mais água até podem, mas perderão a consistência quando forem descongeladas (se você for fazer um suco, tudo bem, mas se for decorar um bolo...).

Só congele queijos se for usá-los como ingrediente em suas receitas (deixe descongelar na parte inferior da geladeira por pelo menos 12 horas). Caso seja ralado, o queijo é mais fácil de ser manuseado quando congelado.

Peixes podem ser congelados por até 3 meses ― sobretudo se o forem logo depois de pescados ―, mas é recomendável não os guardar por mais de um mês. E o mesmo vale para o leite.