Álcool é droga ― mas uma droga “lícita”, largamente consumida em festas, comemorações, happy hours, churrascadas e até mesmo nas refeições do dia-a-dia. Beber “socialmente” é um hábito que teve início 10.000 anos atrás, quando alguém descobriu ser possível reproduzir plantas a partir de suas próprias sementes. Assim, nascia a agricultura e, a reboque dela, à bebida alcóolica.

Observação: Resíduos de uma beberagem feita a partir da fermentação de arroz, mel, uvas e um tipo de cereja, encontrados em jarros chineses que datam de 8.000 a.C. Séculos mais tarde, os sumérios aperfeiçoaram a receita com trigo e cevada e produziram as primeiras cervejas ― o “pão líquido” que era distribuído aos operários que construíram as pirâmides do Egito. O vinho também existe não é de hoje: o faraó Tutancâmon, que viveu treze séculos antes de Cristo, foi sepultado com nada menos que 26 jarras com 15 tipos diferentes dessa bebida.

Esse porre histórico ajudou a superar epidemias, construir impérios, vencer guerras, organizar sociedades democráticas e inventar tecnologias essenciais para o dia-a-dia de todo mundo. A evolução da humanidade e a bebida caminham jutas ― às vezes trocando as pernas, cambaleando e tropeçando, mas sempre juntas.

No início da era Cristã, o álcool era largamente consumido por todas as civilizações, como dá conta o livro Drink: A Cultural History of Alcohol, do inglês Iain Gately. Os gregos cultivavam nada menos que 60 variedades de vinho, e na Roma antiga ele era produzido em grande escala, pois sua exportação era vital para a estabilidade nas províncias do império. A expedição comandada por Fernão de Magalhães ― a primeira a dar a volta ao mundo ― levava um suprimento de vinho cujo valor seria suficiente para comprar mais duas caravelas, e o navio Arbella ― no qual os ingleses foram colonizar a América ―, inacreditáveis 40 mil litros de cerveja e 40 mil litros de vinho (contra apenas 12 mil litros de água).

Quando a produção da cachaça foi proibida no Brasil ― porque Portugal queria garantir o mercado local para seus vinhos ― os senhores de engenho começaram a exportar, clandestinamente, a bebida para Angola, onde era trocada por escravos. Os ingleses também faziam isso, e muito: entre 1680 e 1713, trocaram 5,2 milhões de litros de aguardente por 60 mil africanos (cada escravo valia 86 litros de rum). Em 1764, a Inglaterra restringiu o comércio de bebida alcoólica, que os colonos americanos importavam e exportavam em grande quantidade. Isso gerou uma insatisfação que viria a explodir onze anos mais tarde: liderados pelo general George Washington, que era dono de uma fábrica de uísque, os soldados americanos se embebedavam durante o combate ― cada um tomava 1 litro de rum por dia. Em 1776, a Declaração de Independência dos EUA foi escrita por Thomas Jefferson num bar, e o primeiro a assiná-la foi um contrabandista de vinho chamado John Hancock.

Observação: O álcool também era usado como remédio: no século XIV, quando peste negra chegou à cidade belga de Oudenburg, o abade local proibiu o consumo de água e obrigou os cristãos a beberem cerveja. Por incrível que pareça, muitos deles sobreviveram à peste (pois a cerveja, graças ao álcool, era menos contaminada que a água), e o abade, canonizado, virou Santo Arnoldo, o padroeiro da cerveja.

No século XVI, a Inglaterra tinha 16 mil bares, um para cada 187 habitantes; hoje, existe um boteco para cada 529 pessoas. No século XIX, bebia-se o dobro do vinho que se bebe atualmente. Na Itália, por exemplo, o “néctar dos deuses” era considerado alimento, e até as crianças bebiam vinho regularmente. Na mesma época, cada americano entornava o equivalente a 10 litros de álcool puro por ano, nível superior aos 8,5 litros de hoje, equivalentes a 250 litros de cerveja ou 90 litros de vinho. Foi a partir daí que o alcoolismo, até então apenas uma inconveniência, passou a ser visto como doença séria, e as campanhas e associações contra a bebida conquistaram mais de 500 mil adeptos nos EUA.

Observação: Buscando entender a transformação do açúcar em álcool, o cientista francês Louis Pasteur descobriu uma técnica revolucionária ― apropriadamente batizada de pasteurização ―, que hoje em dia é usada na produção de leite, iogurte, sorvete e sucos industrializados. Ou seja: se Pasteur não tivesse se metido a estudar a bebida alcoólica (ele publicou dois livros sobre a biologia do vinho e da cerveja), os alimentos do mundo moderno seriam bem diferentes.

Atualmente, a bebida alcoólica é considerada vilã, pois vicia, engorda e provoca acidentes os mais diversos. Todavia, o consumo médio mundial per capita é de 5 litros de álcool puro por ano ― equivalente a 125 litros de cerveja, ou 45 litros de vinho, ou 12,5 litros de vodca. Os países onde mais se bebe são a República Checa (cerveja), a França (vinho) e a Moldávia (vodca e destilados).

Por outro lado ― e tudo sempre tem um outro lado ― é consenso entre os especialistas que, se consumido em quantidades adequadas, o álcool faz bem à saúde (menos para os alcoólatras, naturalmente, mas só porque eles não conseguem limitar o consumo às tais quantidades adequadas). Segundo um artigo publicado na revista da PROTESTE, o consumo moderado de álcool favorece o sistema cardiovascular. Para as mulheres, o recomendável é tomar uma taça de vinho por dia e para os homens, duas taças ― isso porque o álcool se concentra mais no sangue da mulher, pois a enzima que o metaboliza é menos ativa do que no organismo masculino.

Independentemente do sexo, convém ficar de olho nas calorias: 1 grama de álcool fornece 7 kcal (a título de comparação, 1 grama de carboidrato equivale a 4 kcal e 1 grama de gordura, a 9 kcal). Para se ter uma ideia melhor, uma tulipa de chope, de 200 ml, “engorda” tanto quanto 50 ml de vinho do porto. Os destilados ― como cachaça, vodca, uísque, tequila, etc. ― têm valor calórico equivalente, mas o uísque costuma ser consumido puro ou com gelo, ao passo que os demais são geralmente usados no preparo de drinques ― como a caipirinha, por exemplo, que, por levar açúcar, é uma verdadeira bomba calórica. Confira os números da tabela que eu reproduzo a seguir:

Saquê (cálice 35 ml): 41 (calorias)

Gim (dose 30 ml): 60 (calorias)

Martini (dose 100 ml): 76 (calorias)

Cerveja sem álcool (latinha 350 ml): 89 (calorias)

Vinho tinto (taça 150 ml): 97 (calorias)

Cerveja comercial (tulipa 300 ml): 98 (calorias)

Vinho branco seco (taça 150 ml): 99 (calorias)

Prosecco (taça 125 ml): 106 (calorias)

Vodca (dose 50 ml): 72 (calorias)

Champanhe (taça 150 ml): 100 (calorias)

Rum (dose 50 ml): 110 (calorias)

Tequila (dose 50 ml): 110 (calorias)

Cachaça (50 ml): 113 (calorias)

Cuba Libre (copo 250 ml): 118 (calorias)

Vinho Quente (100 ml): 120 (calorias)

Whisky (dose 50 ml): 120 (calorias)

Conhaque (dose 50 ml): 125 (calorias)

Chopp (tulipa 300 ml): 180 (calorias)

Cerveja Malzbier (lata 350 ml): 199 (calorias)

Margarita (150 ml): 220 (calorias)

Caipirinha de limão com adoçante (copo 200 ml): 240 (calorias)

Smirnoff Ice (long neck 275 ml): 240 (calorias)

Mojito (copo 200 ml): 250 (calorias)

Caipirinha de limão com açúcar (copo 150 ml): 260 (calorias)

Quentão (100 ml): 294 (calorias)

Espanhola (300 ml): 306 (calorias)

Note que de nada adianta dar uma de abstêmio de segunda a sexta e enfiar o pé na jaca no final de semana. Portanto, beba com moderação.

Com dados da Superinteressante.